Palavra como brinquedo
Por que brincar com palavras vai salvar nossas vidas
Já tem quase uma semana que os dias por aqui tem começado da seguinte forma: acordo um pouco antes do próprio dia e escrevo. Escrevo às vezes sobre o dia anterior. Escrevo às vezes sobre o que eu tenho que fazer no dia que escrevo.
Escrevo às vezes pra reclamar feito um velho ranzinza.
Não raramente, interrompo o raciocínio pra escrever uma coisa que não posso esquecer.
Menos raramente ainda, tenho uma ideia muito foda (que nem sempre sai do papel).
Enfim.
Deus abençoe Julia Cameron por ter me ensinado isso.
Porque, por vezes, o papel é o nosso terapeuta. Talvez não o melhor do mundo, mas, geralmente, o que a gente tem de mais fácil acesso.
Papel não se importa se você gritar.
Ou se chorar.
Ou se falar besteira.
O papel escuta, em silêncio, mas muitas vezes te mostra coisas que você ainda não tinha visto.
O papel, por vezes, vira um espelho.
Um espelho de uma parte tua que você nem sabia que existia. Que te deixa em dúvida: “De onde veio isso??”.
Em especial, isso acontece muito quando a gente decide tentar rimar, usar figuras de linguagem, reinventar uma coisa que já foi feita ou bagunçar as sílabas de uma palavra pra inventar algo novo.
É isso que eu chamo de brincar com palavras.
Por que brincar com palavras?
1.
A brincadeira com palavras pode nos ajudar a expressar sentimentos, achismos da vida, ideias, impressões que a gente nem sabe muito bem que a gente tem.
2.
É preciso brincar com palavras, porque saber usá-las de um jeito especial nos faz conseguir traduzir, de formas incríveis, quem a gente é (principalmente para nós mesmos).
E, com isso, existir de um jeito mais delicioso e menos automático. Mais presente, mais consciente e menos imerso dentro do nosso mundo interno que, por vezes, existe sem perspectivas.
3.
A expressão, por vezes, é o nosso cerne. Uma condição inerente a existir.
E brincar com as palavras nos ajuda nesse fundamento do ser humano: a expressão.
Não sei se você tem sentido isso, mas nossas interações têm sido cada vez mais distantes. Cada vez mais a gente parece mais sozinho (ou pelo menos essa é uma impressão muito particular minha).
Nessa, de ficar absorto dentro do meu trabalho e da minha rotina de forma que, por longos períodos, eu fico sem me expor à outras interações, corro um risco seríssimo de perder pontos na minha capacidade de expressão.
É aí que a “palavro-terapia” entra.
Externalizando minhas bagunças mentais no papel, eu luto contra essa tendência. Quando eu decido fazer, disso, uma brincadeira com as palavras, mais ainda.
4.
Saber usar as palavras à nosso favor nos faz enxergar e interagir com o mundo de forma diferente, especial.
Exemplo.
O que poderia expressar, com tanta delicadeza, essa ideia do Mário Quintana?
Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Quando Chico Buarque faz uma música dizendo “Agora eu era herói e meu cavalo só falava inglês”, com poucas palavras ele te transporta pra um mundo lúdico, infantil, sem precisar te perguntar sobre a sua infância.
Na mesma música, quão expressivo é dizer que, “pela minha lei, a gente é obrigado a ser feliz”?
Enfim.
Posso falar de tantos outros exemplos… Mas acho que eu vou ficar por aqui.


Tô te dizendo pra virar um Chico Buarque ou um Mário Quintana?
Nem posso, porque eu não virei.
Tô só te mostrando os meus maiores exemplos de brincadores de palavras.
Você deve ter os seus. Quais são?
Que mais?
Tá eu fazendo qualquer tarefa convencional de uma casa. Lavando uma louça. Sei lá.
Enquanto isso, escuto “Tempo de se amar”, do 5 a Seco.
Tudo acontece normalmente. Água caindo. Detergente fazendo espuma. Louça ficando limpa para voltar a ser suja em pouquíssimo tempo (fazer o que, né?).
Até que escuto o Pedro Viáfora (acho que é ele) cantando:
“Deixo o futuro criar raiz
Juro que, um dia, serei feliz.”
Pra que?
Começo a chorar copiosamente.
Muita gente vai ouvir essa música e falar “Ah… Fofa.” e é isso.
Mas eu acabei chorando.
O motivo?
Posso te falar sobre o lugar pra onde essa estrofe me levou. Quais sentimentos essa determinada música, com essa determinada frase, tocada com um determinado jeito me fez sentir.
Mas acho que dá pra te explicar de um outro jeito.
Palavras carregam significados. Significados esse, que muitas vezes vão além do que é literalmente dito.
A palavra “pai” pode ser cheia de sentimentos bons pra uma pessoa, enquanto pra outra não vai descer legal.
O mesmo dá pra dizer sobre frases. “Está tudo no mindset” e “Tá deixando dinheiro na mesa”, por exemplo, me dá gatilho. Minha pálpebra já tá até tremendo aqui.
Quando você decide rimar, incluir melodia, ou usar figuras de linguagem pra expressar suas ideias, você usa ativamente essa incrível capacidade de atribuir significados à essas palavras, organizadas de um jeito extremamente gostoso de se ouvir e de se ler.
Mas que, principalmente, traduz o seu mundo interno como ninguém poderia.
De um jeito único. Seu.
Traduzir o seu mundo interno é se expressar. E se expressando, você lida melhor consigo. E lidando melhor consigo, machuca menos você mesmo e as pessoas ao seu redor.
Essa é a minha tese.
A gente passa pela vida tentando descobrir quem a gente é de todas as formas possíveis. Pra mim, escrever é deixar um pedaço nosso registrado. É uma forma bonita de não deixar a vida virar um papel em branco.
Dito isso, te deixo com essa entrevista deliciosa do Lázaro Ramos com o meu herói — outro gênio brincador de palavras — Gilberto Gil.



