Qual é o sentido do que a gente têm feito?
Um método de escrita que me ensinou sobre intencionalidade
“E se eu escrevesse uma história?”
Foi o que eu pensei nas semanas que antecederam esse início de maio, sentado com o notebook no colo, uma xícara de café e acompanhado da preocupação de garantir que esse mês seja financeiramente mais gostoso do que o anterior.
Tive essa ideia pensando nas coisas que eu me considero minimamente bom fazendo, ou que eu gostaria de aprender a fazer.
Escrever histórias, pra mim, está em algum lugar entre esses dois pontos.
Então eu enchi o peito de ar, dei uma boa estalada nas costas e nos dedos, segurei o lápis na mão, apoiei meu caderno na mesa e comecei a pensar sobre a história que eu ia contar.
Mas foi só alguns dias depois que eu decidi sobre o que seria a história.
Não sei quantas ideias você já colocou em prática na sua vida. Mas você há de concordar comigo que ter a ideia é a parte mais fácil, gostosa e chique. Né?
O problema mesmo é por em prática.
Porque, enquanto a ideia existe só na sua cabeça, ela parece a coisa mais fantástica e inovadora do mundo que só um gênio com um QI estratosférico teria.
Até que você vai dando formato para a coisa, e ela vai se mostrando não tão genial assim.
Isso QUANDO ela consegue tomar alguma forma.
Spoiler: não vai rolar.
Tá bom, deixa eu ser um pouco mais honesto. Eu desisti. A história que eu tinha na cabeça foi pro mesmo lugar que vai 90% das ideias do mundo. Pra alguma gaveta fechada.
Mas sabe o que é engraçado?
No meio do processo, enquanto eu ainda estava querendo fazer a coisa acontecer, reencontrei uma coisa interessante.
Um vídeo de quase 10 anos atrás de um cara chamado Raoni Marqs sobre um tal de método snowflake, de um cara chamado Randy Ingermanson.
Sério…
Essa coisa é tão boa, mas TÃO boa, e tão simples… Que eu acho um crime usarmos isso só para escrever histórias.
Explicando rapidinho o método snowflake:
Randy cantou a pedra de que o primeiro passo pra escrever uma história é escrever uma frase.
Uma frase que fale sobre o cerne da coisa. O coração da sua trama. Essa é a frase que você usa quando te perguntam sobre o que é a história que você está escrevendo, e que seus leitores vão usar pra falar sobre o que elas estão lendo.
Uma vez que você tem esse núcleo, a ideia é pegar essa frase e expandi-la em 5 outras — cada uma contando uma parte da história e como ela transita para o estágio seguinte.
A partir dessas 5 frases, você desenvolve os personagens, aprofunda cada trecho, e vai dando corpo à história toda. Em partes. Mas sempre a partir de um núcleo.
Por isso o nome do método é snowflake (floco de neve).
Da mesma forma que o formato base de um floco de neve é um triângulo que vai se ramificando em outros, o ponto central dessa ideia é justamente esse: começar pelo núcleo. Ter a base daquilo que você está fazendo e, só então, ir agregando novas camadas, novos parâmetros, deixando a coisa toda mais complexa.
Mas para além de escrever histórias…
O método do floquinho de neve ensina sobre intencionalidade.
Pensa comigo: a ideia central do snowflake é que você não saia escrevendo a esmo. Você define primeiro o que aquela história é, em uma única frase, antes de construir qualquer coisa em cima dela.
Por que isso é tão importante?
Porque quando você trava, quando não sabe o que vem depois, quando bate aquela crise criativa… você volta pro núcleo.
E o núcleo te diz o caminho.
Daí eu comecei a pensar: e se a gente fizesse isso com outras coisas?
Se você quer ter uma conversa com uma pessoa importante, o que você quer exatamente com essa conversa?
Se você quer escolher uma faculdade, o que é importante que a sua profissão te entregue e seja pra você daqui há alguns anos?
Quando você sai na rua, você sai a esmo — ou você sai com um destino? Com uma intenção?
E se a intencionalidade na nossa vida fosse tão simples quanto escrever uma frase que mostra a intenção por trás daquilo que a gente faz?
E se os nossos maiores projetos começassem com uma única coisa — uma coisinha só — que pudesse guiar tudo que vem depois?
Será que a nossa vida seria mais prazerosa, justamente por a gente ter mais intenção nas coisas que está fazendo?
Será que a gente andaria tanto em círculos?
Será que a gente viveria com tanto medo?
Será que a gente se arrependeria tanto?
…
Eu não tenho resposta pra isso.
Talvez seja mais fácil pensar que a intencionalidade é o caminho para a satisfação, e ignorar que a frustração pode pular de dentro da mata num grande “ARRÁ!!” e te cobrir de porrada a qualquer momento.
De qualquer forma, eu prefiro ter um pouco mais de intencionalidade na minha vida (por mais que eu me frustre as vezes, como me frustrei ao perceber que minha graaaande história não iria dar tão certo) do que andar por aí pulando de galho em galho sem saber muito bem o motivo pelo qual eu faço o que faço.
Espero ter ajudado :)
Dito isso…
Três coisas que eu aprendi (ou simplesmente ficou mais evidente) com o método snowflake:
1. planejar antes de executar.
Prédios bem feitos, apartamentos, casas — construções de forma geral não funcionam bem se antes não existir uma planta baixa. Se antes a gente não entender onde vai cada tijolo, qual vai ser o tamanho de cada cômodo. A visualização central vem antes da execução.
2. Esse planejamento começa pelo núcleo.
A partir do momento que a gente entende que isso vai deixar a ideia mais forte e mais robusta, a pergunta natural é: como a gente se planeja? A resposta é começar pelo cerne, pela frase que define tudo, e vai ramificando o projeto nas áreas que são pertinentes e que estão no nosso alcance de desenvolver com os recursos que a gente tem.
3. De grão em grão, a galinha enche o papo
Não adianta abraçar o mundo com as duas mãos, principalmente quando se trata de grandes planos. Partindo de um objetivo central, é muito mais à prova de crises de ansiedade avançar aos poucos e dividir nosso “objetivão” em “objetivinhos”. Etapas. Fases.
Enfim.
Termino esse texto te perguntando: O quanto existe de intenção por trás das coisas que você têm feito?




Ahh meu amigo, que ótima direção... vejo aqui uma metodologia nascendo do entusiasmo. Entendeu, né? Rsrs
Como diria minha professora de gramática Regina Martins (que empresta nome à minha gatinha):
"Com intencionalidade e competência pode-se fazer tudo, até (!) um parágrafo frasal."
Adorei.